Enquanto se aproxima da escolha de um novo pastor-presidente, igreja do Guará ainda enfrenta cobranças por transparência, acolhimento e esclarecimentos sobre a atuação de sua antiga liderança diante das denúncias de violência sexual
A Igreja Batista Filadélfia, localizada no Guará, encontra-se na fase final do processo de escolha de seu novo pastor-presidente. A sucessão, contudo, ocorre sob o peso de uma crise institucional que permanece longe de ser superada. A substituição da liderança pode representar o início de um novo ciclo administrativo, mas não apaga as perguntas ainda sem resposta sobre os abusos atribuídos ao filho do antigo presidente da congregação e sobre a conduta adotada pelo corpo pastoral diante das primeiras denúncias.
Gabriel de Sá Campos, filho do então pastor-presidente Marcos Campos e ex-integrante do Ministério de Adolescentes, tornou-se réu pelos crimes de estupro de vulnerável e importunação sexual. A denúncia recebida pela Justiça envolve oito adolescentes que frequentavam a instituição. As investigações policiais também consideraram a possibilidade de existência de outras vítimas.
O processo ainda não foi definitivamente julgado, razão pela qual deve ser respeitada a presunção de inocência. Em seu interrogatório, Gabriel negou as acusações. A gravidade dos relatos, entretanto, provocou forte abalo entre membros, ex-integrantes e famílias ligadas à congregação.
À época da prisão, a Igreja Batista Filadélfia divulgou nota afirmando que Gabriel não exercia função de liderança durante o ano de 2025, que nunca havia sido pastor da instituição e que anteriormente atuara como voluntário. A igreja também declarou ter colaborado com as autoridades e negou qualquer tentativa de encobrimento.
O posicionamento, contudo, não respondeu de maneira específica às principais questões institucionais levantadas pelo caso: quando a liderança pastoral tomou conhecimento dos primeiros relatos? Quais pastores foram comunicados? Que providências foram adotadas para proteger os menores? Houve apuração interna independente? As vítimas e suas famílias receberam atendimento psicológico, assistência ou alguma proposta de reparação?
Informações atribuídas a depoimentos e elementos reunidos no processo indicariam que integrantes do corpo pastoral tiveram conhecimento prévio de episódios ou suspeitas relacionados ao então líder de adolescentes. Entre os nomes mencionados estão os pastores Sygmar Viana, Alexandre e Júnior — ou Juninho — Sena. A simples menção a essas pessoas, porém, não comprova participação criminosa. Eventuais responsabilidades precisam ser individualizadas e demonstradas por documentos, depoimentos e decisões das autoridades competentes.
Sygmar Viana foi acusado por membros da congregação de ter minimizado a gravidade dos relatos, defendido o filho do então presidente e priorizado o tratamento interno e reservado do assunto. Ele chegou a ser afastado e posteriormente destituído da instituição por decisão dos membros. Até o momento, entretanto, não existe decisão judicial pública que o reconheça como cúmplice dos crimes atribuídos a Gabriel.
Em sentido diferente, informações relacionadas ao pastor Alexandre apontam que ele teria acolhido os relatos, defendido as vítimas e colaborado com as autoridades. Sua atuação, portanto, não pode ser equiparada à daqueles que eventualmente tenham se omitido ou tentado desacreditar as denúncias.
Quanto ao pastor Juninho Sena, que exerceu a função de copastor da Filadélfia do Guará até 2024, registros públicos indicam que ele deixou a congregação para atuar em outra igreja, em Gurupi, no Tocantins. Não foi localizado pronunciamento público específico no qual ele esclareça quando tomou conhecimento dos fatos ou quais medidas adotou. Sua saída da igreja, isoladamente, não constitui prova de omissão, cumplicidade ou responsabilidade criminal.
Fontes ligadas ao caso afirmam que teria sido encaminhada ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios uma notícia de fato destinada a apurar eventual omissão, favorecimento ou outra conduta juridicamente relevante por parte de integrantes do corpo pastoral. Até o momento, porém, não foi localizada confirmação pública do MPDFT sobre a existência, o número ou o alcance desse procedimento. Enquanto não houver confirmação oficial ou acesso ao respectivo protocolo, não é correto afirmar que todos os pastores citados estejam formalmente investigados.
A eventual apuração não deve partir de uma responsabilização coletiva e indiscriminada. Ao contrário, será necessário distinguir quem acolheu e protegeu as vítimas, quem colaborou com a Justiça, quem efetivamente desconhecia os acontecimentos e quem, mesmo informado, deixou de agir ou contribuiu para que os fatos fossem tratados apenas internamente.
A escolha do novo pastor-presidente, portanto, não encerra a crise. A nova liderança herdará o dever de esclarecer o que a instituição sabia, preservar documentos, colaborar integralmente com as autoridades, estabelecer protocolos efetivos de proteção de crianças e adolescentes e oferecer acolhimento concreto às vítimas e às suas famílias.
Seguir em frente não pode significar apagar o passado. Para recuperar sua credibilidade, a Igreja Batista Filadélfia precisará demonstrar que a renovação pretendida não se resume à troca de nomes no comando, mas inclui transparência, responsabilização, proteção e reparação. Sem respostas claras, o capítulo institucional pode até mudar — mas as feridas permanecerão abertas










